Repare nas letras do seu teclado, no computador ou no celular: Q, W, E, R, T, Y. Por que não A, B, C, D, E, F? A resposta está numa máquina de escrever de 150 anos atrás, e numa história cheia de mitos.
Tudo começou com uma máquina de escrever
Nos anos 1860, um tipógrafo, político e inventor amador de Milwaukee, nos Estados Unidos, chamado Christopher Latham Sholes, trabalhava com colegas numa máquina para escrever mais rápido do que à mão. Em 1868, eles patentearam um modelo. E o teclado dessa primeira versão era, sim, em ordem alfabética, com as teclas arrumadas em duas fileiras, parecendo um pequeno piano.
Nos anos seguintes, Sholes foi mudando a posição das letras aos poucos, por tentativa e erro. No início dos anos 1870, ele fechou um acordo com a Remington, uma fabricante de armas que tinha máquinas precisas e procurava novos negócios depois da Guerra Civil americana. Em 1874 chegou ao mercado a Remington Nº 1, já com um teclado quase igual ao QWERTY que usamos hoje.
O problema das hastes que travavam
As primeiras máquinas de escrever tinham uma haste de metal para cada letra. Ao apertar a tecla, a haste subia e batia no papel. Quando duas teclas vizinhas eram apertadas rápido demais, as hastes se encontravam no meio do caminho e travavam a máquina.
A explicação mais conhecida é que Sholes separou as combinações de letras mais comuns no inglês, como “th” e “he”, para que as hastes delas ficassem longe umas das outras e travassem menos.
O mito: foi feito para deixar as pessoas lentas?
Muita gente conta que o QWERTY foi desenhado de propósito para deixar os datilógrafos mais lentos. Isso é um exagero. O objetivo era evitar que a máquina travasse, e uma máquina que trava menos, no fim das contas, permite digitar mais rápido.
A pista do telégrafo
Em 2011, dois pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão, Koichi e Motoko Yasuoka, analisaram a história das primeiras máquinas e de quem as usava. Eles chamaram atenção para um detalhe: entre os primeiros usuários estavam operadores de telégrafo, que precisavam transcrever mensagens em código Morse rapidamente.
Segundo esses pesquisadores, o teclado foi sendo ajustado ao longo dos anos com base na experiência desses operadores. Algumas posições de letras fariam sentido para quem recebia código Morse e precisava digitar letras que se confundem facilmente. Para eles, a ideia de que Sholes quis deixar alguém mais lento não faz sentido: um telegrafista precisava acompanhar a velocidade de quem enviava a mensagem.
Hoje, a explicação mais aceita combina as duas coisas: os ajustes vieram tanto de problemas mecânicos quanto do retorno dos primeiros usuários.
Por que o QWERTY venceu
Em 1893, várias das maiores fabricantes de máquinas de escrever, incluindo a Remington, se juntaram numa só empresa, a Union Typewriter Company, que adotou o QWERTY como padrão. Escolas passaram a ensinar datilografia nesse teclado, os profissionais aprenderam nele, e trocar ficou cada vez mais difícil.
Quando os computadores apareceram, os teclados simplesmente copiaram o das máquinas de escrever. E os celulares copiaram os computadores. Assim, um desenho do século 19 chegou ao seu bolso.
O rival: o teclado Dvorak
O desafiante mais famoso é o teclado Dvorak, criado pelo professor norte-americano August Dvorak e patenteado em 1936. Ele coloca as letras mais usadas no inglês na fileira do meio, onde os dedos descansam, para que eles se movam menos.
Um estudo da Marinha dos EUA de 1944 dizia que o Dvorak era muito mais rápido. Mas esse estudo foi conduzido pelo próprio Dvorak, que era dono da patente. Em 1956, um estudo do governo americano encontrou que datilógrafos treinados no QWERTY eram tão rápidos quanto, ou até mais rápidos. Em 1990, os economistas Stan Liebowitz e Stephen Margolis revisaram os estudos e concluíram que nenhum dos dois teclados tem uma vantagem clara.
O debate continua até hoje entre os fãs do Dvorak, mas na prática o QWERTY segue dominante. Quem quiser testar o Dvorak pode ativá-lo nas configurações de quase qualquer computador ou celular.
E o teclado brasileiro?
O padrão usado no Brasil, chamado ABNT2, também é QWERTY. A diferença é que ele tem teclas próprias para o português, como o Ç e os acentos. Em Portugal, o teclado também é QWERTY, mas com algumas teclas em posições diferentes. Já na França e na Bélgica é comum o AZERTY, e na Alemanha, o QWERTZ.
Resumindo
- O primeiro teclado de Sholes, de 1868, era em ordem alfabética.
- O QWERTY surgiu nos anos 1870, com ajustes para evitar que as hastes das máquinas travassem e com influência de operadores de telégrafo.
- Ele não foi criado para deixar ninguém lento.
- Virou padrão em 1893 e passou das máquinas de escrever para os computadores e celulares.
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